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| Conheça
Antônio Montalvão, o homem que ergueu uma cidade no mais
remoto sertão mineiro para recuperar as glórias perdidas
da civilização de atlântida. |
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| Homenagem:
Estátua
erguida na Praça Cristo Rei, em homenagem
ao fundador da cidade. [Veja
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| Fica
bem no centro do cemitério. Túmulo de mármore
negro, em forma de pirâmide. Vistoso, exuberante.
Parece que todas as cruzinhas de madeira que
o rodeiam estavam ali para adorá-lo. As cruzes,
fincadas no chão seco do cerrado, têm os nomes
escritos a mão. Mas este jazigo, não. Esse
tem placa com letras douradas: |
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"A alma é a força que causa a coesão e a dissolução
do corpo e nada tem a ver com a morte. Liberta,
alcança a bem-aventurança". A frase é de Antônio
Lopo Montalvão, e esse é seu túmulo. Montalvânia,
sua cidade. |
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| Pérolas
de Montalvão -
Alguns dos melhores trechos da Revista
do Brasil Remoto. |
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| "A
pictogravura mostra o deus Shiva
ou Kukulkan, o Espírito Santo
cristão e o Coração-de-Rá egípcio
ou o Tot que chocara o ovo do
mundo, o Saramangana javanês e
o deus-aranha que dirigira as
inseminações artificiais no reino
das Amazonas." |
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| "Os
sereios primários do tipo Atlas
ou Noé, o Oann pai dos io-anas
(Jonas) e das jonastanas do mato
(índias) tinham suas equivalências
vegetais nas betúleas (amieiro,
vidoeiro)." |
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| "Como
o lusco-fusco da linhagem humana,
aparece a dupla Noé-DEMO como
branco-negro ou magnésio-chumbo
ou enzima-prótides ou intuição-instinto,
um a dar ou refletir e outro a
tomar ou absorver, tais são as
fraternidades brancas e as negras,
a luz e a sombra." |
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| "Esta
inscrição mostra Viracocha ao
lado de um submarino, à frente
do qual aparece uma sereia e,
mais embaixo, uma figura de cinco
antropomorfos encapuçados, naturalmente
com vestimentas aquáticas." |
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| Eram
os Deuses Sertanejos? |
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Montalvânia
nasceu em 22 de abril
de 1952, às margens do
Rio Cochá, afluente do
Carinhanha, na Bacia do
São Francisco. Peãozada
na caçamba, machado e
foice na mão: em poucos
dias, a mata virgem da
Fazenda Barra dos Poções
era posta abaixo. Era
o sonho de Montalvão se
realizando: "Eu sempre
tive na idéia a semente
de uma cidade, como a
Cidade dos Templos de
Monte Albán, no México
antigo, onde o deus Quetzalcoatl
foi iludido pelo demônio
Huitzilopochtl; mas realmente
eu pensava na Nova Tróia
invencível, fadada aos
descendentes de Enéias".
De sangue troiano ninguém
precisava para vir morar
em Montalvânia. Bastava
a vontade de cravar raiz
no extremo norte de Minas
Gerais, sertão brabo,
quase Bahia. Montalvão
dava tudo: lote, casa,
comida, roupa, até moças
casadouras ele foi buscar
nas fazendas da região
para segurar a peãozada.
Montalvânia nasceu bonita,
arrumada.
Cidade planejada, cada
rua batizada com um grande
nome da História: Rua
Schopenhauer, Avenida
Galileu, Praça Platão,
Avenida Buda, Rua Zoroastro,
Rua Plutarco, "companheiros
de tertúlias". Montalvão
achava que o povo do sertão
ia querer saber quem eram
aquelas pessoas todas,
ia se educar. Marli de
Lima, moradora da Avenida
Confúcio, eixo principal
da cidade, sabe na ponta
da língua o porquê daquele
nome: "É que Montalvão
ficou confúcio pra que
lado saía as pista (sic)".
Faz sentido: a Avenida
Confúcio é a única que
não muda de nome ao atravessar
a Praça Cristo Rei, marco
zero da cidade.
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Para Montalvão, o
berço da humanidade
estava impresso nas
inscrições rupestres
de Montalvânia |
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Antônio
Montalvão tinha tudo planejado.
A Montalvânia ele reservava
destino maior, tão certo
estava de que este ponto
remoto do Brasil carregava
a memória da civilização
perdida de Atlântida:
"O maior tesouro de Montalvânia
é o tesouro histórico
nas inscrições rupestres
que se tornam como um
álbum biológico e espacial,
evidenciando que somos
nós os humanos meras larvas
agigantadas de estrelas-do-mar,
precedidos por gigantes
descomunais, por ciclopes
e sereias, enquanto essa
linhagem humana fora também
precedida por seres antropomorfos
exóticos, a evidenciar
que o antropomorfismo
não é privilégio humano
nem o humanismo é privilégio
terráqueo".
Quem conheceu Montalvão
garante que de louco não
tinha nada. Ou não parecia
ter. Homem de fala articulada,
opiniões firmes e cultura
vasta, sua figura impunha
respeito e medo. "Ele
fitava o olho da pessoa
e conseguia o que queria",
lembra Leonardo Marinho,
de 86 anos, amigo do tempo
de escola. Em 21 de abril
de 1955, Montalvão virou
lenda. Foi durante os
preparativos para a festa
de três anos da cidade.
Chegou um sargento acompanhado
de oito soldados, quis
impedir a festa. Montalvão
não só conseguiu atirar
no sargento como também
escapou dos soldados e
desapareceu da vista de
todos.
"Minha avó dizia que ele
virou toco de pau", conta
Josenildo Santos, morador
da cidade. Outras versões
falam dele virando onça,
saco de feijão, ficando
invisível. As histórias
de um homem tomado por
poder sobrenatural desceram
as barrancas do Cochá
e vieram rápido parar
nas águas do São Francisco,
ganhar o sertão.
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No meio do cerrado,
uma nova civilização? |
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Antônio
Montalvão nasceu em 1917
em Nhandutiba, zona rural
de Manga. Mas só começou
a entrar na História em
1949, quando voltou de
um exílio forçado. Aos
22 anos, metera-se numa
briga em Goiânia e matara
o capataz de um chefe
político local. Fugido,
foi parar em Buenos Aires.
Depois de dez anos, estava
de volta. Voltou sabido,
cheio de requintes, diferente
do homem que não havia
passado da terceira série
primária.
E voltou com um projeto:
fundar Montalvânia e torná-la
um centro de desenvolvimento
no coração do país. Erguer
a cidade foi fácil. Difícil
era emancipá-la do município
de Manga e do poder dos
coronéis João Pereira
e Dominiciniano Pastor
Filho.
Montalvão não era muito
chegado em política, mas
inventou de virar prefeito
de Manga para o bem do
projeto. Assumiu em 1959,
quebrando longa tradição
coronelesca e ganhando
o ódio dos inimigos. Então,
num dos lances mais insólitos
de sua vida, Montalvão
pôs a prefeitura de Manga
embaixo do braço e a carregou
para Montalvânia.
Numa noite chuvosa de
1960, o agente fiscal
do município, a mando
de Montalvão, punha numa
mala todos os livros necessários
ao pleno funcionamento
da prefeitura.
Ninguém soube de nada
até o dia seguinte, quando
a prefeitura de Manga
amanheceu a 80 quilômetros
dali, no centro de Montalvânia.
Embora tecnicamente fosse
um povoado do distrito
de Poções, Montalvânia
naquele momento era mais
cidade que Manga. Tinha
água encanada, rede telefônica,
posto de saúde, correio,
campo de aviação. Dois
anos depois, virava município.
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Leonardo Marinho
(ao fundo) e João
Geólogo: amizade
fiel a Antônio Montalvão. |
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Vencida
essa parte do plano, Montalvão
saiu da política para
dedicar-se ao progresso
da cidade e ao Instituto
Filantropo Cochanino,
centro de estudos esotéricos
que ficava no topo do
Monte Lopino, às margens
do Rio Cochá. Meteu na
cabeça que devia criar
um eixo de desenvolvimento
entre Brasília e Montalvânia.
Em 1966, partiu de foice
na mão, 40 homens atrás,
abrindo picada. Traçou
543 quilômetros de estrada,
pôs uma camionete Willys
verde para rodar, sentou-se
ao volante e inaugurou
uma linha direta com a
capital: "Montalvânia-Brasília:
um pulo de sapo". Fez
isso por dois anos.
Montalvão voltou a ser
prefeito só em 1973. Candidato
único. Quase perdeu para
os votos em branco. "Ele
tinha opiniões muito radicais.
Tudo deveria ser do jeito
que ele queria", diz o
atual prefeito, José Florisval
de Ornelas. Dinheiro não
havia, mas o progresso
tinha de vir. Durante
seu mandato, Montalvão
vendeu duas fazendas para
asfaltar Montalvânia.
Orgulhoso, soltou um belo
boi branco para circular
sobre o asfalto: era o
deus Ápis. E ai de quem
fizesse dele um bife.
"Quando meu pai virou
prefeito, dispôs de recursos
próprios para melhorar
Montalvânia", diz Cássio
Montalvão, um de seus
sete filhos. "Depois que
ele saiu, a gente não
tinha mais nada. Passamos
necessidade, fomos morar
em barracão." Seu mandato
foi cravado de críticas,
e com razão: a política
já não interessava a Montalvão.
Muito mais inspiradoras
eram as pinturas rupestres
ao redor da cidade, o
que ele chamava de "Bíblia
de Pedra".
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Montalvão
não estava só. Tinha
sempre João Vieira
a seu lado. "Percorri
essa serra toda
atrás das pinturas.
Enfrentei muita
onça pra achar essas
grutas", conta João
Geólogo, como é
chamado. Acordo
simples: João ia
atrás das inscrições
rupestres e o outro
lhe pagava a descoberta.
Nisso, o escudeiro
fiel encontrou mais
de cem sítios arqueológicos.
"Quando era garoto,
eu achava que as
pinturas eram coisa
dos índios, mas
o Montalvão dizia
que era de uma civilização
muito antiga, que
andava de avião
e disco voador.
Quando veio o Dilúvio,
eles foram para
Marte. Depois o
mundo tornou a criar
nova vida, que somos
nós." Com a ajuda
de jovens médiuns,
Montalvão identificava
ele mesmo cada pintura
e batizava cada
sítio: Lapa da Hidra,
Labirinto de Zeus,
Lapa de Possêidon,
Abrigo dos Diplodocus.
Os peixes eram submarinos.
Os triângulos, naves
interplanetárias.
As figuras antropomorfas,
divindades africanas,
gregas, hindus,
andinas, javanesas
ou tudo isso ao
mesmo tempo.
Na Lapa de Gigante
viu a imagem de
um homem e achou
que lá devia estar
enterrado o corpo
de um gigante. Mandou
João Geólogo escavar
12 metros e, pois,
eis que surge a
ossada de uma preguiça-gigante.
Ponto para Montalvão,
que exibe orgulhoso
na cidade a prova
física de sua bizarra
teoria. O caldo
que mistura mitologia,
botânica, astronomia,
bioquímica e uma
farta dose de ficção
científica está
todo documentado.
Sob os auspícios
do Instituto Filantropo
Cochanino, Montalvão
lançou na década
de 70 cinco edições
da Revista do Brasil
Remoto, com suas
próprias interpretações
das pinturas (veja
algumas no quadro)
e mais dois livros:
Cordeiro Vestido
de Lobo Antificção
das Ficções Sonambúlicas
e Analogias do Naturalismo
Universal, nos quais
contesta, de uma
só vez, Lavoisier,
Newton e Einstein.
Tinha planos de
lançar mais 12.
Montalvão sustentava
a firme convicção
de que Montalvânia
fora erguida no
centro do universo,
no "Omphalo Delos,
o nó umbilical por
sobre o ventre tartárico".
Ou seja: a divisão
dos hemisférios
não estaria no Equador,
e sim numa linha
curva que surpresa
passa sobre o
norte de Minas.
Todos os mitos,
todas as lendas
teriam nascido em
Montalvânia, à beira
do Cochá "Mama
Cocha, o Lago Matriz
onde surgiu a humanidade"
e se espalhado
pelo mundo depois
que os atlantes
foram para Marte:
"A fase do penúltimo
dilúvio ocorrido
há 33 mil anos correspondeu
à ruptura do saco
amniótico da raça
humana, quando os
marcianos de Adonai
(...) transportaram
primitivos tupis
(...) para a Groenlândia.
E assim como tudo
começou aqui, tudo
começará de novo,"
vaticina Montalvão.
"O fado de Montalvânia,
como berço da humanidade
fermentável e como
sua própria campa,
será o novo berço
da humanidade destilada,
com seu campanário
na voz dessas pedras
falantes." Enquanto
a humanidade destilada
não aparece, Montalvânia
continua sendo um
dos municípios mais
pobres de Minas
Gerais. Seus 17
mil habitantes vivem
da pecuária e esperam
há anos por uma
rodovia asfaltada
que os leve ao menos
até Manga. "Não
herdamos nada dele",
resume Cássio Montalvão.
"Só o orgulho de
ter sido filho dele,
de carregar o sobrenome."
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Montalvão
morreu em 1992,
aos 75 anos,
de ataque do
coração. Morreu
só, deitado
na rede, na
sede do Instituto
Filantropo Cochanino,
cercado de gatos
que julgava
serem encarnações
de divindades
hindus. Ao lado
da sua casa
ergueram um
Cristo de concreto
com uns bons
5 metros de
altura. Lugar
bom, alto, para
todo mundo ver.
Tereza, lavadeira
do Cochá, contesta:
"Foi um erro
fazer essa estátua
do Cristo. Eles
deviam era ter
feito uma estátua
de Antônio Montalvão".
Tereza não sabia,
mas a estátua
já estava pronta.
Foi Zé Baiano
quem fez. Chegado
de Xique-Xique
com a fundação
de Montalvânia,
Zé Baiano é
morador antigo.
"Montalvão era
homem de coragem.
Tinha loucura,
não." A estátua
banhada em bronze
é menor que
a do Cristo,
tamanho natural,
agora enfeita
a Praça Cristo
Rei
[ Foto ].
Por:
Xavier
Bartaburu, de
Montalvânia
Fotos:
Francilins
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